A governabilidade de Lula no novo mandato presidencial exigirá intensas negociações e alianças estratégicas além da Esplanada dos Ministérios, diante de um Congresso Nacional dominado pela oposição de direita. A avaliação foi feita por especialistas durante o Seminário Brasil 2027 – Desafios do Novo Ciclo, promovido pela Fundação Casa de Rui Barbosa, no Rio de Janeiro.
Segundo o professor Lúcio Rennó, do Instituto de Ciência Política da UnB, o crescimento de partidos como PL, PP e Republicanos garante à direita mais da metade das cadeiras na Câmara e no Senado. Esse avanço conservador impõe barreiras significativas para a formação de uma base aliada consistente no Legislativo.
Rennó pondera que, embora o Brasil tradicionalmente veja o presidente como o condutor central de políticas públicas, mudanças institucionais alteraram esse cenário. "Uma série de reformas desequilibraram a balança em prol do legislativo e em detrimento do executivo", analisou o acadêmico.
Outra ameaça é a postura de oposição sistemática. O cientista político Cláudio Couto, da FGV-EAESP, classifica a oposição atual como uma "direita anti-Estado Democrático", disposta a operar na lógica de sabotagem e a ignorar a legitimidade do Executivo.
Como exemplo dessa dinâmica, Couto mencionou a resistência de parlamentares à reforma tributária, rejeitada por setores oposicionistas prioritariamente por se tratar de uma proposta da gestão Lula, mesmo tendo o respaldo de lideranças bolsonaristas como o senador Ciro Nogueira (PP).
Centrão deverá integrar o governo
Nesse cenário de forte polarização, os partidos do Centrão assumem papel determinante na busca por maioria legislativa. Couto ressalta que o diálogo com essas siglas será crucial para garantir a tramitação da pauta governista na Câmara dos Deputados.
A disputa pelas presidências da Câmara e do Senado surge como primeiro grande teste do governo. Rennó lembrou que os comandantes das Casas definem a pauta, gerenciam emendas e detêm o poder sobre eventuais processos de impeachment e indicações de ministros ao STF.
Entretanto, analistas alertam que compor o ministério não basta. O Executivo precisará aprimorar sua coordenação política interna para garantir que indicados partidários de fato orientem suas bancadas no Congresso a votar com o Palácio do Planalto.
Com isso, propostas enviadas pelo governo tendem a sofrer modificações profundas desde a elaboração. "O Congresso vai querer mexer em tudo. E o que for aprovado daqui para frente será uma agenda que refletirá interesses do Executivo e de sua base", observou Couto, destacando o papel articulador da Casa Civil.
Apesar do ambiente adverso, o presidente Lula declara confiança na construção de pontes no Parlamento. Especialistas lembram que, no atual mandato, o governo já obteve vitórias expressivas no Congresso, incluindo a aprovação do fim da escala 6x1.
"O jogo não acabou"
Diante da pressão parlamentar, a articulação com a sociedade civil surge como sustentáculo alternativo. A professora Talita Tanscheit, da PUC-Rio, defende que o Partido dos Trabalhadores (PT) mantenha canais abertos com movimentos progressistas e amplie conselhos e conferências públicas.
Tanscheit pontuou que o engajamento popular nas eleições representou um marco inédito na América Latina, pois focou na disputa eleitoral nas urnas e na defesa da democracia, diferentemente de movimentos de protesto ocorridos no Chile e na Colômbia.
Desafios para a democracia
A resistência conservadora também pode pressionar o governo a negociar pautas morais e institucionais. Projetos da extrema-direita, como a redução da maioridade penal para 16 anos e mudanças no Poder Judiciário, devem entrar no radar das barganhas políticas.
O debate sobre o STF ganha força com o aumento de senadores do PL. Segundo Rennó, a perda de legitimidade da Corte reabre discussões sobre mandatos para magistrados, alteração de atribuições penais e até processos de impeachment no Senado.

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