Economistas heterodoxos contestam a pressão do mercado financeiro por cortes de despesas, apontando que a alta taxa de juros é a verdadeira causadora do crescimento da dívida pública brasileira, que atingiu 82,9% do PIB em agosto de 2026.
Controvérsia sobre o ajuste fiscal
Enquanto analistas liberais defendem a redução do orçamento do Estado para conter despesas primárias, especialistas de correntes desenvolvimentistas alertam que a medida prejudica diretamente serviços essenciais como saúde, educação, previdência e assistência social.
A professora do Instituto de Economia da Unicamp, Simone Deos, afirma que a trajetória do endividamento em moeda nacional não traz riscos de calote nem de surto inflacionário, uma vez que o país não possui dívida expressiva em dólares.
Comparação internacional e o impacto dos juros
Pesquisadores lembram que nações desenvolvidas mantêm patamares de endividamento muito superiores ao do Brasil, a exemplo do Japão (236% do PIB), dos Estados Unidos (120%) e do Reino Unido (101%), sem enfrentarem cenários de descontrole.
O problema central no cenário nacional reside no custo do refinanciamento. Nos últimos 12 meses, o Brasil destinou R$ 1,1 trilhão exclusivamente ao pagamento de juros, montante que representa 8,86% do PIB e compromete o orçamento público.
O professor da UFRRJ, Fernando Henrique Lemos Rodrigues, critica a comparação entre as finanças do Estado e o orçamento familiar. Segundo ele, o governo possui capacidade de arrecadação, rolagem de dívida e receitas de estatais.
Alternativas para a estabilização econômica
Rodrigues argumenta que a exigência por austeridade atende aos interesses das instituições financeiras, beneficiadas pela rentabilidade dos títulos públicos. Ele defende que a inflação sob controle abre espaço para a queda das taxas de juros.
Como alternativa ao corte de investimentos sociais, especialistas sugerem uma atuação coordenada do Banco Central utilizando as reservas internacionais de US$ 350 bilhões no mercado cambial para conter a inflação e permitir a redução sustentável da taxa Selic.

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