Deixar o carro em casa por um dia é o convite simbólico do Dia Mundial sem Carro, celebrado em 22 de setembro. Em Goiânia, porém, a discussão pode ir além da data: com uma das maiores frotas de veículos do país e um sistema de transporte coletivo que passa por uma ampla renovação, a capital goiana vive um momento em que escolhas sobre mobilidade também significam escolhas ambientais.
Segundo levantamento divulgado pela Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), o número de ônibus urbanos elétricos a bateria, trólebus e movidos a biometano em circulação no Brasil chegou a 2.235 unidades em 2026. Na capital goiana, a renovação também ganhou escala. Segundo a Secretaria-Geral de Governo de Goiás, o planejamento da Nova RMTC prevê 1.170 novos ônibus climatizados até 2026, dos quais 150 serão elétricos. A estratégia inclui ainda a renovação de veículos que operam no BRT Norte-Sul e nas linhas alimentadoras.
Para Miguel Angelo Pricinote, Mestre em Transporte e Fundador do Mova-se Fórum de Mobilidade, a discussão ambiental precisa acompanhar os avanços do transporte coletivo. “A transformação da mobilidade urbana exige encarar o transporte coletivo não como um serviço assistencial, mas como um indutor de desenvolvimento econômico, qualidade de vida e sustentabilidade. A renovação da frota, com veículos mais confortáveis, conectados e menos poluentes, ajuda a romper o estigma de que o ônibus é um transporte de segunda classe e pode fazer parte de uma estratégia mais ampla de redução da dependência do automóvel”, afirma.
Mais do que trocar veículos, é preciso mudar a lógica da mobilidade
A substituição de veículos convencionais por modelos de menor emissão representa um avanço importante, mas não resolve sozinha o problema ambiental das cidades. O impacto positivo da eletrificação e do uso de combustíveis menos poluentes aumenta à medida que esses veículos transportam mais pessoas e passam a integrar uma rede capaz de competir com o transporte individual.
Esse é um ponto especialmente relevante em Goiânia. A capital possui uma frota expressiva de automóveis e motocicletas e enfrenta diariamente congestionamentos, longos deslocamentos e ocupação intensa do espaço viário. Ao mesmo tempo, o transporte coletivo precisa disputar a preferência de uma população que possui diferentes opções de deslocamento, incluindo carros particulares, motocicletas e serviços por aplicativo.
O cenário nacional ajuda a dimensionar o desafio. De acordo com o Anuário 2025-2026 da NTU, o número de passageiros transportados em nove capitais brasileiras caiu 2,3% em 2025, interrompendo a recuperação observada depois da pandemia. Foram aproximadamente 395 milhões de passageiros até outubro, contra 404,3 milhões no mesmo período de 2024. O volume ainda está distante dos 530,6 milhões registrados em 2018.
A redução da demanda ocorre justamente em um momento em que o transporte coletivo precisa ganhar importância na agenda ambiental. Quanto menos passageiros o sistema transporta, mais difícil se torna diluir os custos da operação e manter investimentos necessários para a renovação da frota e a melhoria do serviço.“O cidadão só migra do carro quando percebe que o transporte coletivo oferece uma proposta de valor competitiva. Isso passa por tempo de viagem, velocidade comercial, confiabilidade e previsibilidade, além de segurança e informação em tempo real. Se o ônibus ficar preso no mesmo congestionamento que o carro, por exemplo, a tendência é que o motorista continue escolhendo o veículo individual”, explica.
A bicicleta também entra nessa equação. Para deslocamentos curtos, o modal pode substituir viagens feitas de carro ou motocicleta sem gerar emissões diretas e ainda contribuir para uma cidade menos dependente de combustíveis fósseis. Mas, assim como acontece com o transporte coletivo, o incentivo à bicicleta exige infraestrutura.“Ciclovias conectadas, bicicletários, calçadas adequadas, travessias seguras e integração com terminais e estações são fundamentais para que a bicicleta deixe de ser utilizada apenas em momentos de lazer e passe a fazer parte da mobilidade cotidiana”, reforça o especialista.
A questão ambiental, portanto, não deve ser tratada como uma disputa entre modais. O objetivo é construir uma rede em que diferentes formas de deslocamento possam funcionar de maneira complementar. Uma pessoa pode caminhar até uma estação, utilizar o ônibus e completar o trajeto de bicicleta, por exemplo. Quanto mais possibilidades a cidade oferece, menor é a necessidade de que cada deslocamento seja feito individualmente de carro.
O Dia Mundial sem Carro cumpre um papel pedagógico, mas a mudança permanente depende de políticas públicas estruturantes e perenes. “É preciso investir na primeira e na última milha, com calçadas adequadas e redes cicloviárias seguras, além de priorizar o transporte coletivo e a mobilidade ativa no espaço viário. A mudança acontece quando essas alternativas passam a fazer parte da rotina e não apenas de uma iniciativa pontual”, destaca Miguel.

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