Um levantamento inédito realizado pelas organizações Semiótica Antirracista e Estúdio Nina expôs como o racismo no audiovisual afeta a remuneração, a linguagem e a ascensão profissional de trabalhadores negros no Brasil. Lançado no início do Novembro Negro com o apoio da Audiolivros, o dossiê A Cor do Som colheu relatos de 24 especialistas e profissionais do setor de produção sonora.
O documento destaca que os timbres vocais humanos são diversos e rejeita a ideia de que existam divisões raciais na voz. Contudo, a pesquisa identificou uma tendência técnica de tentar "higienizar" as produções de áudio no país, eliminando sotaques, marcas culturais afro-brasileiras e ruídos populares sob um padrão de origem colonial e elitista.
Padronização estética e barreiras de linguagem
De acordo com os autores, as orientações recebidas por operadores de som visam neutralizar elementos periféricos. Além disso, a imposição da norma culta reduz variações linguísticas ao status de erro. O estudo resgata o conceito de "Pretuguês", formulado por Lélia Gonzalez (1935-1994), que descreve as marcas fonéticas africanas presentes no português brasileiro.
Mulher exibe cartaz na XII Marcha das Mulheres Negras do Rio de Janeiro, na orla de Copacabana. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Desigualdade no mercado de trabalho
No ambiente corporativo, profissionais negros relataram enfrentar salários inferiores aos de colegas brancos na mesma função, contratações motivadas por baixas pretensões salariais e falta de reconhecimento em projetos que eles mesmos desenvolveram. A maioria também apontou ser canalizada para funções operacionais em vez de cargos de criação.
Relatos e segregação de mercado
Entre os depoimentos colhidos, um profissional de criação relembrou ter sido demitido após solicitar remuneração adequada, sendo substituído por uma influenciadora branca. Outro relato apontou a dificuldade de ter voz ativa em decisões estratégicas, mesmo sendo o principal responsável pela elaboração do projeto.
A pesquisa também alerta para a rotulagem de produções feitas por pessoas pretas como conteúdo "de nicho". Segundo os pesquisadores, essa lógica racista perpetua a ideia falsa de que apenas produções com pessoas brancas possuem alcance universal, limitando o espaço de criadores negros na indústria.
Combate ao silenciamento
Os idealizadores do dossiê ressaltam que o silenciamento é uma das ferramentas mais frequentes de discriminação. Com o estudo, as entidades buscam transformar os fluxos de trabalho e provocar uma reflexão crítica sobre os padrões consolidados no mercado audiovisual brasileiro.

Viver Goiás