A estagnação ou cortes em beneficios sociais e previdenciários poderão causar uma retração severa à atividade econômica em municípios do interior do Brasil. A constatação é de um levantamento recente do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades (Made), ligado à FEA-USP.
Segundo o estudo, aposentadorias, Bolsa Família e Benefício de Prestação Continuada (BPC) possuem peso vital na economia dessas localidades. Em muitos casos, essas transferências chegam a representar quase metade do orçamento das famílias mais vulneráveis.
“Como o valor recebido por essas famílias é usado quase integralmente para a aquisição de itens de primeira necessidade, o dinheiro circula imediatamente no comércio local”, destaca a economista Luiza Nassif, co-diretora do Made-USP.
Fora das regiões metropolitanas, o peso das transferências públicas chega a ser o dobro em relação aos grandes centros urbanos. No Ceará, por exemplo, os benefícios respondem por 40% da renda agregada no interior, enquanto na capital o índice é de 22%.
Impactos futuros
As projeções econômicas para os próximos três anos indicam que, sem reajustes reais, a renda agregada do interior do país sofreria uma retração drástica. O estudo comparou o cenário de valorização com o período de congelamento entre 2019 e 2022.
Sem os acréscimos, a queda na renda ficaria entre 6,8% e 10,8%. O cenário seria ainda mais crítico no interior do Rio Grande do Norte, Amapá e Piauí, onde a redução total bateria 18%.
Os efeitos na pobreza
Além de movimentar o comércio, os auxílios são fundamentais no combate à miséria. Para famílias com renda de até 1,5 salário mínimo per capita, os repasses compõem metade do rendimento mensal.
Simulações apontam que a ausência de ganhos reais teria empurrado cerca de 2,7 milhões de pessoas para a pobreza fora das capitais, sendo 2,4 milhões na extrema pobreza.
“Manter a valorização real é a garantia mínima de dignidade para as famílias e de sobrevivência para o comércio local no Brasil profundo”, conclui Nassif.

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